
Cinco gotas por pergunta e oito bilhões de litros por ano. Os dois são verdade.
O debate ambiental da IA é feito com dois números honestos que ninguém coloca na mesma mesa. Quando você entende por onde a água sai de um data center, descobre que a maior parte da conta não está onde os dois lados estão apontando.
Toda vez que alguém pergunta se usar IA é um absurdo ambiental, aparecem duas respostas prontas.
A primeira diz que cada pergunta ao ChatGPT seca uma garrafa de água e que isso vai derreter o planeta. A segunda diz que é exagero de ativista, que o consumo é irrelevante perto de qualquer outra coisa que a humanidade faz.
O detalhe incômodo é que as duas usam número real, publicado, com fonte e ano. O que separa uma da outra não é honestidade com o número. É o zoom do mapa. E depois que você entende isso, a discussão inteira muda de lugar.
Os dois números, com nome e ano
Do lado da unidade: em 2025, um time do Google publicou “Measuring the environmental impact of delivering AI at Google Scale” (Elsworth, Huang, Patterson e outros), medindo o custo de um prompt de texto mediano do Gemini. Deu 0,24 Wh de energia e 0,26 mL de água. Os próprios autores traduzem a unidade: cinco gotas.
Do lado do agregado, e agora é outra empresa: o “2026 Microsoft Environmental Data Fact Sheet” registra 8.170 megalitros de água consumidos pela Microsoft no ano fiscal de 2025. São mais de oito bilhões de litros, 22% acima do ano anterior, e metade da captação veio de áreas sob estresse hídrico.
Cinco gotas por pergunta é verdade. Oito bilhões de litros por ano é verdade. Não existe contradição: um número é uma pergunta, o outro é uma empresa inteira durante um ano.
E repare numa coisa que é parte do problema: são duas empresas diferentes, com metodologias diferentes, e o número da Microsoft é da operação toda dela, não da IA. Ninguém publica as duas metades de um jeito que permita multiplicar uma na outra. É por isso que esse debate é tão fácil de ganhar com meia verdade.
Ou seja: são dois zooms do mesmo assunto. Um mostra a gota. O outro mostra o oceano, e ninguém publica a régua que liga um ao outro.
O data center não bebe água, ele sua
A maioria das pessoas imagina que a água entra no data center e lava alguma coisa lá dentro. Não é isso. Um galpão com milhares de placas de vídeo, cada uma dissipando centenas de watts, é literalmente um forno. Esse calor precisa sair do prédio, ou o equipamento para.
E o jeito mais barato de tirar calor é evaporar água. A água é pulverizada numa torre de resfriamento, o ar passa por ela, e uma fração evapora. A passagem de líquido para vapor rouba calor do que ficou atrás. É exatamente o mecanismo do suor: você não esfria porque está molhado, você esfria porque a água que estava em você virou vapor e levou o calor embora. E evaporar gasta muito menos eletricidade do que jogar esse mesmo calor fora com máquina de refrigeração, o que explica por que a indústria inteira faz assim. Menos, não zero: a torre ainda tem bomba e ventilador rodando.
E é aqui que está o ponto: o que evapora não volta para aquela bacia hidrográfica. Virou vapor, subiu, e vai chover em outra bacia.
Quem diz “mas a água não se perde, ela volta pro ciclo” está certo na escala do planeta e errado na escala do rio. Ela não volta pro rio de onde saiu.
O paper “Making AI Less ‘Thirsty’: Uncovering and Addressing the Secret Water Footprint of AI Models”, de Li, Yang, Islam e Ren (2023), separa isso com precisão. Retirada é quanto de água sai da fonte, e mede competição pelo recurso. Consumo é retirada menos devolução, o que evaporou e não voltou, e mede indisponibilidade para quem está rio abaixo. Numa torre de resfriamento com água de boa qualidade, cerca de 80% da retirada evapora e conta como consumo.
A água que ninguém está contando é a da usina, não a do prédio
Agora o dado que eu acho o mais importante do assunto, e o que menos aparece.
A pegada hídrica tem duas partes. A direta é o que evapora na torre do prédio. A indireta é o que evapora na usina que gerou a eletricidade, porque termoelétrica sua do mesmo jeito.
Nos Estados Unidos, o “2024 United States Data Center Energy Usage Report”, do Lawrence Berkeley National Laboratory para o Departamento de Energia, calcula 66 bilhões de litros de consumo direto em 2023. O EESI, um instituto de pesquisa em energia e meio ambiente, estima em “Data Centers and Water Consumption” (2025) a pegada indireta da eletricidade que esses mesmos data centers consumiram em torno de 211 bilhões de galões no mesmo ano, uns 800 bilhões de litros.
A água invisível é cerca de doze vezes a água visível.
E daí sai o corolário que muda a conversa de lugar: painel solar e turbina eólica não precisam de água para gerar. Trocar térmica por solar e eólica ataca a maior parte do problema hídrico da IA sem mexer em uma única torre de resfriamento. Vale a ressalva: nem toda fonte de baixo carbono é de baixa água. Hidrelétrica e nuclear pontuam bem em carbono e mal em água, e é por isso que o próprio paper mede as duas coisas separadas.
E repare no que isso faz com o debate de hoje, que é inteiro sobre o prédio: quantos litros aquele data center vai tirar daquela cidade. A pergunta é legítima e tem lugar onde é decisiva. Mas a maior parte da conta está na usina, e ninguém protesta na frente da usina.
E aqui entra a nota brasileira, que é boa notícia sem ser desculpa: nossa matriz é majoritariamente renovável, então o mesmo consumo de energia carrega menos água e menos emissão aqui do que num país movido a carvão.
Duas coisas que dão pra fazer com isso hoje
A primeira serve se você contrata infraestrutura, hospedagem ou nuvem: peça o PUE do fornecedor.
PUE é a sigla de power usage effectiveness, ou eficácia no uso de energia. É uma divisão simples: toda a energia que entra no prédio dividida pela energia que de fato chega aos servidores. PUE 2,0 significa que para cada 1 kWh de computação, outro 1 kWh foi gasto em refrigeração, iluminação e perda elétrica.
A régua: o “Global Data Center Survey 2025” do Uptime Institute mediu média global ponderada de 1,54, e registra que esse número está praticamente parado pelo sexto ano seguido. O Google reporta 1,09 na média anual da própria frota em 2025. Escolher fornecedor é decisão ambiental, e o PUE substitui o relatório de marketing por um número.
A pergunta, literal:
“Qual o PUE médio anual da instalação onde meu ambiente vai rodar, medido nas quatro estações e incluindo toda a sobrecarga do prédio?”
Se vier um número de projeto em vez de um número medido, ou se não vier número nenhum, isso também é informação.
A segunda serve para qualquer pessoa que usa IA: use IA proporcional à tarefa. Não peça a um modelo de raciocínio caro o que um modelo rápido resolve. Não gere vídeo quando texto resolve. Isso não é ascetismo digital: custo computacional e preço andam juntos, então é o mesmo conselho que economiza o seu dinheiro. Incentivo ambiental e incentivo financeiro apontando pro mesmo lado é raro o bastante pra aproveitar.
O que eu tiro disso
Que o medo mais difundido sobre IA e energia é exatamente o que os números não sustentam.
O relatório “Key Questions on Energy and AI”, publicado em 2026 pela IEA, a agência internacional de energia, faz uma conta que quase ninguém faz: se todas as buscas convencionais da internet, no mundo inteiro, virassem consultas de texto a uma IA, o acréscimo seria de menos de 4 TWh por ano. Menos de 1% do que os data centers consomem hoje.
Leia de novo, porque é contraintuitivo. “Imagina se todo mundo usar IA em vez de Google” é justamente o cenário que não é problema.
O mesmo relatório projeta os data centers indo de 485 TWh em 2025 para cerca de 950 TWh em 2030, uns 3% da eletricidade global. Então o crescimento é real e é rápido. Ele só não vem do seu chat de texto. Vem de geração de vídeo, de modelos que ficam pensando minutos antes de responder e de agentes executando dezenas de passos sozinhos, que segundo a própria IEA consomem de centenas a milhares de vezes mais por consulta do que uma pergunta de texto simples.
A pergunta honesta nunca foi “eu deveria usar menos IA?”. É “quem está construindo o que, com energia de onde, tirando água de qual bacia?”.
Cinco gotas e oito bilhões de litros são o mesmo assunto visto de dois zooms diferentes. Quem te mostra só um deles está fazendo campanha, não análise.
Fontes
- IEA (2026). 'Key Questions on Energy and AI', World Energy Outlook Special Report. https://www.iea.org/reports/key-questions-on-energy-and-ai/executive-summary
- Elsworth, C., Huang, K., Patterson, D. et al. (2025). 'Measuring the environmental impact of delivering AI at Google Scale'. https://arxiv.org/abs/2508.15734
- Microsoft (2026). '2026 Microsoft Environmental Data Fact Sheet', Tabela 8. https://cdn-dynmedia-1.microsoft.com/is/content/microsoftcorp/microsoft/msc/documents/presentations/CSR/2026-Microsoft-Environmental-Data-Fact-Sheet-PDF.pdf
- Li, P., Yang, J., Islam, M. A., Ren, S. (2023). 'Making AI Less "Thirsty": Uncovering and Addressing the Secret Water Footprint of AI Models'. https://arxiv.org/abs/2304.03271
- LBNL/DOE (2024). '2024 United States Data Center Energy Usage Report'. https://eta-publications.lbl.gov/publications/2024-lbnl-data-center-energy-usage-report
- EESI (2025). 'Data Centers and Water Consumption'. https://www.eesi.org/articles/view/data-centers-and-water-consumption
- Uptime Institute (2025). 'Global Data Center Survey 2025'. https://intelligence.uptimeinstitute.com/resource/uptime-institute-global-data-center-survey-2025
- Google Data Centers, 'Power usage effectiveness' (2025). https://datacenters.google/efficiency/