
A tesoura da complexidade: por que ferramenta de IA sozinha não muda o resultado
Toda empresa que cresce enfrenta a mesma matemática silenciosa: o número de conversas necessárias explode muito mais rápido que o número de pessoas. Entenda por que essa conta, e não a ferramenta de IA, decide quem ganha ou perde.
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Um time de cinco pessoas tem dez jeitos de se falar entre si. Basta contar: cada pessoa precisa de uma linha aberta com cada uma das outras, e isso dá 10 pares possíveis. Agora leve esse mesmo time pra cinquenta pessoas. O número de pares não sobe pra cem, nem pra quinhentos. Sobe pra 1.225.
Não é um erro de conta. É a própria conta: o número de conexões entre pessoas cresce no quadrado do número de gente, porque cada pessoa nova precisa se ligar a todas as que já estavam lá. Dobrar o time não dobra a complexidade de coordenar. Ela cresce muito mais rápido que isso.
Nenhuma empresa aguenta 1.225 conversas soltas circulando sem controle. Então ela faz o que qualquer organização faz quando o caos ameaça: empilha camada. Um coordenador aqui, um comitê ali, mais uma aprovação, uma reunião de alinhamento por semana. Isso funciona, no sentido de que evita o caos. Mas tem um preço, e esse preço tem nome: custo de coordenação. É tudo que você gasta só pra alinhar gente, sem produzir nada que o cliente veja.
Aqui mora o mecanismo que a McKinsey chamou de tesoura da complexidade, no relatório “The operating model advantage: Why AI winners are rewiring their organizations”, assinado por Christoph Schmitz, Dago Diedrich, Gianmarco Cilento e Steffen Fuchs (2026). A receita de uma empresa cresce em forma de S: devagar no começo, rápido quando o produto pega, devagar de novo quando o mercado amadurece. O custo de coordenação, por outro lado, não desacelera nunca. Ele só sobe. As duas curvas se afastam como as lâminas de uma tesoura abrindo, e é essa abertura que explica um número duro: menos de 1 em cada 10 empresas grandes consegue manter retorno acima do custo de capital por uma década inteira.
Isso não é problema de multinacional. É problema de qualquer negócio que passa de um punhado de gente pra uma estrutura de verdade. O escritório de contabilidade que tinha três sócios decidindo junto e hoje tem vinte funcionários, três gerentes e uma reunião de alinhamento toda segunda sente essa mesma tesoura, só que em escala menor. A conversa que antes era direta agora passa por três pessoas antes de virar decisão.
É por isso que a inteligência artificial muda algo que ERP, reengenharia de processo e as ondas de tecnologia anteriores nunca mudaram. Todas elas aceleraram a tarefa e deixaram a camada de coordenação intacta. Comprar uma ferramenta de IA pra redigir mais rápido, analisar mais rápido ou responder mais rápido faz a tarefa encolher. Mas se o gargalo real é o número de gente que precisa concordar antes de algo sair, a tarefa mais rápida só espera mais tempo na fila.
A pergunta que fecha a tesoura não é qual ferramenta comprar. É quantas conversas o seu fluxo de trabalho realmente precisa, e quantas delas só existem porque ninguém nunca parou pra contar.
Fontes
- Christoph Schmitz, Dago Diedrich, Gianmarco Cilento e Steffen Fuchs, McKinsey, 2026. "The operating model advantage: Why AI winners are rewiring their organizations"